Sobre o Encontro Nacional de Homens Trans

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Recentemente houve o Encontro Nacional de Homens Trans em São Paulo, e o que me chamou a atenção nesse momento foi a grande visibilidade que os Homens Transexuais trouxeram nesse debate ( estavam presentes mais de 100 homens Trans) desde a criação do IBRAT – Instituto Brasileiro de Homens Trans , onde em 2013 surgiu  durante o I Encontro de Homens Trans do Norte/Nordeste realizado em João Pessoa.

Alguns pontos que foram discutidos no Encontro dos homens trans que precisam de agilidade do poder público:

  • A hormonioterapia deve ser realizada pelo SUS (Sistema Único de Saúde), assim como sua aplicação e controle pelos profissionais de saúde, pois hoje os ambulatórios apenas receitam os hormônios e são comprados e injetados pelos próprios homens trans, isso quando conseguem ser liberados nas farmácias, pois como alguns ainda constam a identidade feminina no RG acabam não conseguindo e adquirem pela internet sem nenhum controle do procedimento do produto.
  • Os ambulatórios e locais de realização de cirurgia tem percebido que no Brasil ainda há uma fila de em média 10 anos para realizar um procedimento, como eles não conseguem esperar tanto tempo, alguns acabam fazendo a retirada das mamas e do aparelho reprodutor feminino, em consultórios particulares ou pelo plano de saúde privado. O Conselho de psiquiatria ainda vê a questão dos homens trans como uma patologia, diferentemente do conselho de psicologia que não enxerga a identidade de gênero trans como uma patologia, porém, se não é visto como uma patologia, o grande questionamento fica em cima de vários laudos para se fazer alguma cirurgia reparadora , inclusive o laudo do psicólogo. Se os sujeitos transexuais são donos de seu próprio corpo, porque se precisa de tanto laudo para fazer qualquer tipo de procedimento? Quem é o detentor sobre o corpo da outra pessoa? Seria  o profissional de saúde a pessoa mais indicada para falar o que devo ou não fazer sobre o meu corpo?“Eu sei quem eu sou. Por que preciso que alguém confirme para mim quem eu sou para fazer a hormonização e a cirurgia (de retirada dos seios)?”, questiona Enzo Guerra, que se mudou do Ceará para São Paulo em dezembro. “O corpo é meu e eu só posso modificá-lo se tiver um laudo assinado por várias pessoas, psicólogo, psiquiatra, assistente social.” 
  • Outra questão colocada em debate  foisobre as várias formas de ser masculino em nossa sociedade, não podemos achar que o modelo machista vigente serve como parâmetro, muito pelo contrário as trans masculinidades estão aí para provar que a masculinidade não deve ser focada no órgão sexual masculinos e nem em atitudes machistas que trazem desigualdade e violência nas relações entre gêneros.
  • A questão também de cidadania é primordial, o nome social é importante para ter respeito a identidade de gênero, porém, se deve lutar para a mudança do nome de registro, bem como a mudança de gênero nos documentos de identidade, como já acontece com alguns homens trans no nosso país.
  • Também precisamos incluir os homens trans no mercado de trabalho formal, pois, muitas vezes não conseguem passar pela etapa da entrevista quando a empresa descobre que aquela identidade de gênero é masculina e não feminina como constava no currículo ou em sua aparência física e psíquica sofrem discriminação e não conseguem o emprego.

Enfim, temos muito o que avançar nas Politicas Publicas para homens Trans no Brasil, estamos muito felizes com esse I Encontro Nacional e gostaria de parabenizar a todos os homens trans do Brasil, pela grande troca de experiências entre gestores, profissionais, pesquisadores e pelo empoderamento dos homens Trans que estiveram presentes em todas as mesas e deram seus depoimentos fantásticos sobre a dificuldade do que é ser homem trans em nosso país.

ENAHT

Agradeço ao IBRAT na pessoas de Luciano Palhano pelo convite e a tod@s que fazem os núcleos do IBRAT em todo país.

QUEM SÃO OS HOMENS TRANS?

Os homens trans são diferentes entre si em função dos próprios marcadores sociais de diferenças, como a classe social, a raça/cor, a orientação sexual, a geração, a origem geográfica, entre outras. Eles, de modo geral, utilizam o termo “transexual” ou “trans” frequentemente tomando-o como adjetivo e, por isso, precedido pelo substantivo “homem”. São pessoas que nasceram com a genitália feminina e desde criança não se identificam com o sexo biologico feminino, pois sempre se sentiram meninos em sua psique, por isso, que muitas vezes a necessidade de se reconhecer do sexo masculino é inerente a sua personalidade. Para isso acontecer passam por vários conflitos sejam eles individuais ( numa sociedade que é  outogardo o binarismo de gênero- masculino x feminino), familiares e sociais, como são criados para serem meninas, sofrem em silencio no  seu lar por meses, anos e alguns até décadas. Algumas experiências e marcos culminam na decisão de, em algum momento da vida, reclamar a identidade masculina. Tal decisão é associada não só à possibilidade de obtenção de conforto psíquico, mas de respeito e reconhecimento social.

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Sobre o Autor

Roberto Maia

Roberto Maia, psicólogo,sanitarista e turismólogo. Exerce a função de Coordenador na Coordenadoria de Promoção a Cidadania LGBT em João Pessoa. Trabalha com pesquisa em gênero e sexualidade pela UFPB, professor de pós graduação em Saude Publica pela Agencia de Cursos (PE), Em 2012 recebeu o premio do INOVASUS COMO UM DOS MELHORES GESTORES DE SAUDE PUBLICA DO BRASIL, pelo então Ministro Alexandre Padilha.

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