MELHOR ASSIM – POIS RESPEITO TAMBÉM É UM DIREITO

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Papo Íntimo Bom dia Paraíba
A transexualidade (trans homem, trans mulher, pessoas trans) refere-se à condição do indivíduo com identidade de gênero diferente da designada ao nascer e que, por isso, tem o desejo de viver e ser aceito/a como sendo do sexo diferente ao que lhe foi atribuído. A Cirurgia de Redesignação Sexual (CRS) é o termo usado para os procedimentos cirúrgicos pelos quais a aparência física de uma pessoa e a função de suas características sexuais são modificadas para as do sexo oposto. É parte do tratamento para o que ainda é classificado como transtorno de identidade de gênero.

Vendo a matéria do Papo Íntimo, (Bom Dia Paraíba, TV Cabo Branco, 27 de dezembro de 2013), sobre a cirurgia de redesignação sexual, observo que apesar de pequenos ajustes ainda serem necessários no uso dos termos e na compreensão dos detalhes das singularidades da diversidade sexual, sem dúvida é um avanço ver uma canal de TV fazer opção de pautar um tema que é tabu e alvo de rejeição e discriminação da sociedade e da própria imprensa. Principalmente quando sabemos até que ponto a mídia foca seus interesses a partir da audiência. Naturalmente essa audiência quase nunca dialoga com tabus e certas pautas sociais que são polêmicas, mas não “polêmicas” a partir do ponto de vista comercial que interessa às mídias.
O próprio esforço da repórter e mesmo dos especialistas em “dialogar” com os novos termos e seus significados; e um ou outro deslize no uso do artigo feminino e masculino para se dirigir às “novas” identidades de gênero; reflete a falta de informação e de espaço na sociedade e nas mídias para falar de forma natural e explícita sobre a diversidade sexual. Mas isso pode e vai sendo melhorado na medida em que os profissionais e órgãos de imprensa ampliem o espaço de debate com os movimentos sociais. Esses grupos e organizações não governamentais que representam a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) na construção de suas pautas políticas tem sido protagonistas, juntos aos/as cientistas sociais, especialistas e educadores/as, dentro e fora das universidades, na construção dos termos e tratamentos mais adequados às suas identidades e histórias de vida e luta pela superação dos preconceitos e por direitos.

Quanto a CRS, assunto da matéria, outros termos podem ser usados também: cirurgia de readequação de gênero, cirurgia de reatribuição sexual, cirurgia de reconstrução genital, cirurgia de confirmação de gênero. Mas o termo comumente usado “mudança de sexo” é considerado impreciso, entre outras razões, pelo fato de que as pessoas transexuais não estão mudando o sexo, mas adequando a genitália à sua verdadeira identidade de gênero. Entendido isso é possível compreender porque também não é adequado usar expressões como: “mulher que quer ser homem” ou “homem que quer ser mulher”.
Ainda é importante dizer que, embora a travesti (e não o travesti) não apresente o desejo real pela cirurgia de readequação sexual não devem ser definidas como “homens que se vestem de mulheres”. Diferente de artistas do sexo masculino ou rapazes que saem na noite a trabalho ou por diversão (transformista, Drag Queen) caracterizados com vestimentas femininas, travestis são pessoas com identidade de gênero diferente do seu sexo biológico e que assumem para toda vida e em todas as situações cotidianas e na intimidade não só as vestimentas, mas o comportamento, hábitos e atitudes do gênero feminino.

Às mídias, em especial a TV, ainda não dialogam com essas questões como deveria, mas é possível observar avanços em diferentes programas jornalísticos, ou não, em diferentes canais de televisão. Eu considero que a reportagem no Papo Íntimo dá contribuições importantes para ampliar, desmistificar e naturalizar o debate sobre a transexualidade na sociedade através das mídias. Não é comum, apesar de alguns avanços observáveis, a mídia televisada dedicar um espaço importante de sua programação, buscando por informações junto a profissionais qualificados e responsáveis, sobre questões da diversidade da sexualidade humana ou sobre direitos da população LGBT. A programa reconhece, ainda, a “complexidade do tema” e a “falta de informação” sobre o assunto. Mesmo sabendo, todos nós, o papel que a própria televisão e os programas jornalísticos deveriam assumir nesse campo.
Simbolicamente o programa, dentre todas as possibilidades, escolheu o tema para ser assunto do último Papo Íntimo do ano e num período onde a família tradicional é o foco das atenções na televisão e a sexualidade poderia não ser um tema bem-vindo. E finalizar a matéria afirmando que o objetivo do programa foi colaborar para “quebrar os tabus e fazer as pessoas enxergarem o outro de forma igual e sem preconceito” nos anima a acreditar e se orgulhar dos papéis que poderiam ter os jornalistas e o jornalismo.
Para assistir o quadro clique aqui.

NOTA:

Em novembro de 2012, a American Psychiatric Association (APA) aprovou as revisões para o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), que passou a ser conhecido como DSM-5. O novo manual deixa de classificar a transexualidade como uma desordem ou transtorno mental. O DSM-5 também deixa de falar em transtorno de identidade de gênero, já que o termo está associado a uma patologia, e passa usar o termo disforia de gênero nos casos em que há uma incongruência marcante entre a própria experiência de gênero e sexo do nascimento. No entanto, a transexualidade ainda é considerada um transtorno de identidade de gênero pela Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID 10, e, no Brasil, é essa classificação que garante às pessoas transexuais o direito à terapia hormonal, psicoterapia e à cirurgia de redesignação sexual.

Luciel Araújo,
Comunicador Social, Educador Popular e Militante LGBT

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