A morte do movimento LGBT

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No Brasil já faz algum tempo que vivenciamos a morte do movimento social LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), as ONGs que surgiram a partir dos antigos movimentos sociais estão dando seus últimos suspiros, cansadas e acostumadas com a atual situação do pais, não vemos um movimento que realmente luta pelos direitos para as pessoas LGBT. O movimento está estático, mas isso não é culpa apenas do movimento LGBT em si, mas das pessoas que o compõem e das pessoas que estão fora.

Desde o início movimentos que nasceram apoiando todos os segmentos foram desfragmentando-se aos poucos, criando movimento só de lésbicas, só para gays, só para bissexuais e só para travestis e transexuais. Buscando dar mais visibilidade e empoderamento, porém, isso fragilizou o movimento causando muita discriminação e preconceito dentro do próprio movimento LGBT. Atualmente movimentos que deveriam estar unidos estão separados e brigando o tempo todo, ao invés de juntarem-se para conseguirem pouco a pouco os direitos de todas e todos.

Paradas LGBT

Um exemplo da desunião do movimento são as Paradas do Orgulho LGBT, poucos organizam, mas muitos criticam sem nem disponibilizar seu tempo para organizar o evento. Criticam a Parada por ser só GGGG (gays), criticam a parada por chamar atrações que não sejam de seu agrado, criticam por dar visibilidade a apenas uma letra, criticam por qualquer coisa, mas ajudar a organizar são poucos que tem a coragem de fazer isso.

Apoiem as Paradas LGBT, diga não ao ostracismo puritano!

transexual na cruz viviany beleboni

O caso da Transexual na cruz em plena Parada LGBT de São Paulo, causou muita polêmica nas redes sociais, eram LGBTs que não faziam parte de movimento, não sabiam sobre as lutas, criticando o ato da trans Viviany Beleboni. A crítica era simples e a mensagem chegou ao seu alvo, as transexuais estão morrendo todos os dias por causa da transfobia, o Brasil é o país que mais mata transexuais e a maioria morre por ser condenável pela Bíblia. Outros atos com cruzes já aconteceram no país, o movimento negro já colocou um negro na cruz para abordar o racismo e a morte da juventude negra no país, a revista Placar colocou em sua capa o Jogador Neymar em uma cruz e nada foi dito a respeito, mas bater em LGBT é fácil, principalmente quando tem apoio dos mesmos.

É como diz uma frase famosa de Simone de Beauvoir “O opressor não seria tão forte, se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”, não é apenas o movimento LGBT que tem morrido é a força de vontade das pessoas LGBT em geral, que acreditam estar seguros e procuram a sensação de pertencimento apoiando discursos machistas, racistas e LGBTfóbicos, para serem vistos como alguém pertencente àquela comunidade, que jamais sofreria com aquilo que tanto apoia, mas acreditem sofre e muito com isso.

Afeminados e Jean Wyllys

“É a gay afeminada do interior que usa salto e cabelo descolorido que muda o mundo, não você que passa o dia no snapchat preenchendo seu ego.” (Frase do Twitter @seioamostra)

afeminado

Os novo movimentos que vem surgindo são das pessoas que não definem a sua sexualidade e que estão em transição, essas pessoas não querem pertencer a letrinhas, mas querem mudar o mundo. Usam cabelos coloridos, saem de saia e batom mesmo sendo taxados pela comunidade como homens, usam bigodes só para não esquecerem que a ideia é não definir-se. Essas pessoas pouco a pouco desconstroem a teoria de que todos devem se comportar daquela maneira machista, sexista e misógina ensinada pela comunidade tradicional. Mas também são elas as primeiras a sofrerem com essa fobia existente na sociedade, são violentadas e assassinadas e ouvimos gays e lésbicas dizerem: “morreu por ser afeminada”.

#afeminadosday: o poder dos gays no twitter

Culpar a vítima é algo que aprendemos desde criança, fruto de todas as fobias ensinadas por nossas famílias e pela comunidade em geral. Atualmente temos o primeiro Deputado Federal abertamente LGBT, que sofre discriminação e preconceito diariamente e não apenas pelos homofóbicos de nosso país, pela própria comunidade que está inserido, e protegendo em seu mandato. Jean Wyllys era para ser um exemplo de luta (e para mim ele é), mas é criticado por suas posturas, pense em ser chamado de “viado”, “queima rosca”, “boiola” e tantos outros apelidos inventados por outros deputados homofóbicos como são aqueles que estão com o Bolsonaro.

Se após anos de sofrimento Jean Wyllys resolveu cuspir em Bolsonaro, isso nos mostra o quão cansado estamos de sofrer tal discriminação e é esse o pensamento que o movimento tem que tomar. Não temos que aceitar calados ofensas, o Deputado denunciou várias vezes seu opressor, mas nada foi feito até agora. Jean Wyllys cuspiu em Bolsonaro, mas quantos LGBT não morreram calados com tiro na cabeça vítima de seus algozes homofóbicos, com cruzes desenhada de faca em sua barriga? Temos que nos mover, parar de aceitar que o mundo é homofóbico, quando aceitamos isso nos tornamos também fruto desse meio que vivemos.

FORA TEMER é real e imaginário ao mesmo tempo

Que o presidente em exercício Michel Temer compactua com os religiosos e não faz nada de importante para a comunidade LGBT, nós já sabemos, por esse e outros motivos ele deve ser retirado do poder. Mas quando o movimento social LGBT toma essa luta para si, não é apenas buscando a retirada de um presidente opressor, mas buscando a sua estabilidade novamente, muitos militantes de ONGs LGBT são filiados ao partido da presidente afastada Dilma Rousseff, que vale salientar também não contribuiu muito para o fim da LGBTfobia no país.

O Jogo de interesses existente no movimento LGBT fez com que ele afastasse muitos militantes, a visão política partidária supera a visão política de movimento social. Para alguns que estão a frente dos movimentos LGBT de todo o Brasil, a bandeira do partido é muito mais importante do que a do arco-íris, e procuram dar mais apoio àqueles que estão no movimento e que também fazem parte do seu partido.

O movimento LGBT precisa reinventar-se, aprender sobre não-binarismo, sobre teoria queer, respeitar todos e todas e unir-se. Mas o principal a fazer é a lição de casa, buscar, averiguar e denunciar os crimes contra as pessoas LGBT em todo o Brasil. Não deixar que os crimes contra a nossa população fiquem impunes, criar movimentos de rua para chamar a atenção da comunidade, ir para a TV denunciar e educar a comunidade, buscar políticas públicas para a população LGBT de rua, população essa violentada e expulsa de suas casas, buscar o estado laico como realmente deve ser, sem o apoio desses religiosos fundamentalistas que aumentam os números de LGBTs mortos com seus discursos de que Deus odeia gays.

Talvez o movimento LGBT não tenha morrido e isso tudo tenha sido apenas um descanso antes da guerra contra a LGBTfobia que está por vir, mas os pedidos do fundo do peito são para que respeitem-se, movam-se, reinventem-se e empoderem-se, só assim mudaremos o mundo.

 

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Sobre o Autor

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), assessor de Mídias Sociais em diversas empresas, crítico, político e ativista.

1 Comentário

  1. O trecho “buscar o estado laico como realmente deve ser, sem o apoio desses religiosos fundamentalistas que aumentam os números de LGBTs mortos com seus discursos de que Deus odeia gays.” concorda com as pesquisas abaixo:
    “Religião e laicidade: discriminação e violência.”

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