A vida no armário, um conto assustador que ninguém contou

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O texto aborda  a realidade de muitos homem gays, bissexuais e pansexuais que viveram suas vidas presos no armário do preconceito.

De repente você acorda em um mundo novo, onde todos vivem um padrão de vida, e que a sua única opção é segui-lo. Quem quebra as regras básicas da comunidade acaba sendo motivo de chacota e sempre sendo mostrado como exemplo do que não fazer, amedrontando os demais para que não cometam os mesmos “erros”. Você é doutrinado a viver uma realidade que nem sempre é a sua, seguir religiões que as vezes nem concorda e participar de eventos da cultura do local para ser aceito dentro da comunidade.

A televisão mostra o exemplo a ser seguido, com casais heteronormativos e um casal de protagonistas que no final ficarão juntos, esse modelo é utilizado em filmes, novelas e séries. Os livros de ciência mostram a genitália masculina e feminina, na escola os exemplos são do senhor pato, da senhora pata e da felicidade deles terem gerado 7 patinhos. Na escola seus amigos se orgulham das conquistas feitas por eles com as meninas e é nesse momento que você procura algo que preencha esse vazio de ter alguém com você, apesar de estar bem consigo mesmo, você precisa contar algo para que os outros acreditem que você não é diferente deles, então você mente.

Mas você aprende desde pequeno também que mentir é errado, mas é melhor mentir e sofrer calado, que falar a verdade e ser julgado por todos a sua volta. Ninguém quer ser o diferente,  então seus parentes começam a questionar se você já conheceu alguém, você até tenta falar a verdade, mas acaba que a mentira satisfaz mais quem está perguntando, então você mente novamente, frustra-se novamente, fica decepcionado e começa a pensar que esse alguém tem que existir para que todas essas pessoas possam ver que tudo que foi dito é verdade.

Você começa a olhar a sua volta e tentar ver além, tenta aprender com os outros meninos como eles fazem para conquistar as meninas, mas você é desajeitado, talvez por não estar tão interessado. Até que você percebe que você talvez esteja errado sobre sair com meninas, mesmo assim você ainda tenta e chama alguém pra sair ou pede para alguém apresentar uma menina a você. Esforça-se ao máximo para namorar, muitas vezes apresenta aos país e aos familiares que ti questionaram, aquela não é mais uma pessoa, é um troféu que você tem que expor para que parem com as perguntas. Mas elas não param, elas nunca irão parar.

Vocês já estão namorando? Vão casar quando? E os filhos, quantos pretendem ter? É triste, quando você percebe que não quer mais fazer parte desse mundo cheio de regras, quando você descobre que é gay, bi ou pansexual, e fica pensando se sofre com o julgamento ou se vive a vida cheia de regras que eles prepararam para você mesmo antes de seu nascimento.

Então para ser aceito você segue o exemplo de todos, namora, casa (talvez com alguém que você não ama),  tem filhos, mas uma hora você sofre. Isso é inevitável, casais tem discussões, filhos dão muito trabalho, você tem que educá-los do mesmo modo como foi feito com você, ou pelo menos é o que a sociedade espera que faça. Então em um momento de estresse você tenta reviver aquilo que havia deixado para atrás, procura não o amor, mas o sexo fácil que é para não apaixonar-se, para matar a sua curiosidade e deixá-lo voltar a sua vida com sua família. Mas não é assim que o mundo funciona, você quer aquela felicidade, aquela sensação todo dia, até que certa vez você conhece alguém que vale a pena continuar não só a transa, mas todas as emoções vindas com ela, os beijos, os abraços, afagos, carinhos, cafunés e sussurros.

foto homem preto e brancoLogo você tão correto, que sempre fez tudo o que a sociedade exigiu, traindo sua família, dando uma falsa sensação de felicidade e união para as duas pessoas com quem divide sua cama, você começa a perceber que não está apenas ficando infeliz como acabará levando a infelicidade para todos com quem se relaciona. Então promete para si mesmo que nunca mais voltará a acontecer, mesmo contra a sua vontade, vai à igreja, viaja, sai com a família. Vive e dá o prazer e a felicidade que acredita ser essencial para os seus parentes, mas infelizmente não é a sua. Você vive triste, frustrado e sua companheira percebe tudo isso, talvez querendo o mesmo, e vendo que seus filhos já estão crescidos, vocês seguem caminhos separados, buscando a felicidade ao lado de outras pessoas.

Então você volta a querer rever aqueles encontros que teve anteriormente, mas todos já seguiram as suas vidas, alguns já até morreram, outros estão casados, mudaram-se de estado ou até de país. Você está sozinho, velho e carente, não consegue encontrar o sexo com tanta facilidade, tendo na maioria das vezes que pagar e por diversas vezes sendo humilhado por aqueles com quem está dividindo a cama, olhares de nojo, de julgamento, a cada encontro um novo medo de ser reconhecido e ter tudo aquilo que você construiu jogado pelo ralo e levar aquele maldito selo de “viado” que é o primeiro xingamento que você aprendeu. Nessa situação, você lembra da sua infância, adolescência, pensa como essa vida foi sofrida, como você foi um “exemplo de homem” para a sociedade, porém viveu para os outros e não para você, sempre dentro da caixa, sempre preso no armário ou no cativeiro que colocaram você.

Cansado de tudo, abandonado por todos, você questiona qual o sentido da vida, lembra de tudo o que aconteceu e fica na dúvida. Será que eu fui feliz? Envelhecer e não ter vivido tudo o que quis é tão aterrorizante, você até pensa se vale a pena continuar a viver. Mas ser julgado novamente por ser fraco, por querer chamar a atenção, por sentir-se sozinho. Isso não, você tem que continuar firme, ser tudo aquilo que esperam que você seja, o vovô legal cheio de histórias para contar. Mal sabem ele que o vovô tem sonhos bem quentes com homens musculosos agarrando e beijando.

Ai você se dá conta, o vovô triste é mais um vestígio de poeira no armário do preconceito, mais uma história de infelicidade que vemos em nosso cotidiano. Quem sabe se estivesse fora do armário, você não estaria com seu amor ainda ao seu lado, tendo as lembranças das viagens, dos filhos, adotados ou até de alguma barriga de aluguel, vivendo uma vida plena. E seus netos, ah eles teriam muito orgulho de ter um avô que burlou o sistema e deu chance para que mais pessoas LGBT possam ser felizes na família.

 

Willamys Guthyers

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